Foto: Linkedin (https://www.linkedin.com/in/alan-greenspan-b11469172/)

O maestro da política monetária americana

Alan Greenspan, um dos presidentes do Fed mais respeitados e longevos da história dos EUA, faleceu nesta segunda-feira, 22 de junho de 2026, aos 100 anos, em decorrência de complicações da doença de Parkinson.

Seu mandato como chairman do Fed, de agosto de 1987 a janeiro de 2006 — quase 19 anos no total —, foi um dos mais marcantes na história da instituição: um período intenso de acontecimentos, mas também de prosperidade extraordinária.

Coincidiu com o mais longo ciclo de alta da Bolsa de Valores de NY, de março de 1991 a março de 2001 — uma década inteira de crescimento sustentado. A explicação que Greenspan oferecia, em seu estilo sempre enigmático e parcimonioso nas palavras — o que, segundo muitos, deu origem ao “hermetismo característico da comunicação dos bancos centrais” —, era o aumento expressivo da produtividade da economia norte-americana, impulsionado pela revolução tecnológica dos anos 1990. O crescimento acelerado, segundo ele, não gerava inflação justamente porque a tecnologia ampliava a capacidade produtiva do país de forma estrutural.

Sua decisão de deixar a economia seguir seu curso — resistindo às pressões para elevar os juros diante de uma ameaça inflacionária que nunca se concretizou — foi determinante para promover anos de prosperidade nos EUA. Foi essa postura que lhe rendeu o apelido de “maestro” da economia, título que também deu nome à célebre biografia escrita por Bob Woodward.

Foi nesse mesmo contexto que surgiu sua expressão mais famosa: em dezembro de 1996, Greenspan questionou publicamente se a valorização excessiva dos ativos financeiros não seria fruto de uma “exuberância irracional” dos mercados.

Ao longo de quase duas décadas à frente do Fed, Greenspan navegou por uma série de turbulências que poderiam ter desestabilizado a economia americana: o “crash” das bolsas de outubro de 1987 — sua primeira prova de fogo, respondida com corte agressivo de juros e injeção de liquidez —, recessão de 1990/1991, contágio da crise financeira asiática de 1997/1998, colapso das empresas ponto.com em 2000 e as turbulências econômicas que se seguiram aos atentados de 11 de setembro de 2001. Em todos esses episódios, sua resposta foi injetar liquidez no mercado de forma imediata e sem restrições.

Não viu, ou não evitou, porém, a crise do “subprime” de 2008. Foi precisamente nela que muitos passaram a responsabilizá-lo por ter estimulado o sistema financeiro a afrouxar na regulação, alimentando ao longo dos anos uma série de bolhas de ativos. Defensor convicto da autorregulação dos mercados, Greenspan havia diagnosticado, equivocadamente, que os gestores das instituições financeiras não operariam contra seus próprios interesses, alavancando-se além do razoável.

Em outubro de 2008, em depoimento ao Congresso americano, reconheceu o erro com visível abatimento: “Isso foi para mim um choque.” Era a mais pública das rendições intelectuais de sua carreira.

O Fed divulgou nota lamentando a perda, destacando que sua ênfase na análise rigorosa e na formulação disciplinada de políticas ajudou a fortalecer a confiança do público no banco central. Jerome Powell destacou que Greenspan foi “um exemplo de como o discernimento pode, às vezes, superar os modelos tecnocráticos da economia”.

Para mim, Greenspan foi um dos maiores banqueiros centrais de todos os tempos — ao lado de Paul Volcker, entre outros. Um homem que moldou décadas da economia mundial com discernimento, coragem intelectual e, quando necessário, a humildade de reconhecer seus próprios erros. Com sua morte, encerra-se a trajetória de uma das personalidades mais influentes e inevitavelmente contraditórias da história econômica recente.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *