1. Por que esse debate volta sempre à tona
Há um debate que cresce no meio acadêmico, no corporativo, na sociedade como um todo, e que revela uma simbiose interessante entre a academia e o mercado: é o que disserta sobre como lidamos com a incerteza.

É importante porque a incerteza também “conversa” com as tomadas de decisão do mercado – especialmente, com a alocação de recursos entre os diversos ativos disponíveis.

No meio acadêmico, temos uma discussão bem interessante que separa os keynesianos (ou os pós) e os neoclássicos, ou defensores do livre mercado. Os primeiros nos levam a saber como chegar ao pleno emprego, ao longo prazo com estabilidade e previsibilidade. Para isso, há a necessidade do uso do ferramental da teoria keynesiana (Teoria Geral do Emprego e da Moeda, John Maynard Keynes, 1946), que considera que as flutuações de demanda precisam ser mitigadas pelas intervenções do setor público, estimulando consumo e investimento.

Para isso, o multiplicador keynesiano ganha destaque. É um conceito macroeconômico que indica que um aumento inicial nos gastos (como investimentos do governo) gera um aumento mais do que proporcional no PIB. Tem-se daí que o debate keynesiano passa pelo ambiente econômico em que predomina a incerteza. Ninguém tem como prever crises ou como diriam, flutuações de demanda.

Na visão neoclássica, os mercados tendem a se “autoajustar”, não sendo necessárias correções a partir dos gastos do setor público. Parte-se da errônea visão de que o processo é natural e previsível, a partir das ocorrências passadas. A longo prazo, a economia tende a se ajustar e chegar a um estado de equilíbrio ou estabilidade. O problema aqui é que para chegarmos ao longo prazo, uma sucessão de curtos prazos, de erros de percurso, precisam ser superados.
No mercado financeiro, muitos tentam enquadrar o tempo a partir da apuração do nível de risco, que é mensurável a partir da probabilidade de ocorrência. A incerteza, no entanto, não é controlável ou mensurável, é um “salto no escuro”.

Toda esta discussão, no entanto, é acadêmica, passando pela teoria econômica. Observamos a teoria pós-keynesiana, que tem a incerteza tem como norteador, uma “ponte no tempo, para o futuro” tendo como destaque a “preferência pela liquidez”.

É a decisão da demanda por moeda, de acordo com o momento analisado, tendo as escolhas por precaução, transação ou mesmo, especulação. Nisso, a taxa de juros passa a ser o motivador para estes eventos, com destaque para a moeda como um ativo e para o fato da taxa de juros ser o “preço” a ser remunerado, de acordo com o que se enxerga no futuro.

Outra visão é aquela mais voltada para a Economia Comportamental, com a autora Simone Stolzoff, na publicação do livro HOW TO NOT KNOW. Para ela, “aceitar a incerteza não significa resignação, mas sim desenvolver mais clareza, adaptabilidade e capacidade de julgamento”. Explora-se neste livro a nossa crescente intolerância coletiva à incerteza e funciona como um guia prático e filosófico para aprender a abraçar o desconhecido.

2. A perspectiva comportamental: How to Not Know
Para Dan Kawa, economista da Partner Investments, “o livro How to Not Know, de Simone Stolzoff, traz reflexões práticas sobre esse tema, mostrando que aceitar a incerteza não significa resignação, mas sim desenvolver mais clareza, adaptabilidade e capacidade de julgamento. Stolzoff defende que a nossa capacidade de lidar com a ambiguidade está atrofiando.”

Segundo a autora, “alimentados pelo acesso instantâneo à informação e por algoritmos projetados para nos dar respostas imediatas, criamos uma falsa ilusão de controle. No entanto, diante de cenários complexos – como crises climáticas, transições de carreira ou flutuações econômicas (olha os pós-keynesianos aqui), a busca cega por certezas gera ansiedade profunda.”

O livro propõe que o “não saber” não deve ser encarado como uma fraqueza, mas sim como uma habilidade essencial para a inovação, empatia e tomada de decisões.

3. A raiz acadêmica: a incerteza na economia pós-keynesiana
Essa conexão entre incerteza e tomada de decisão é um dos pilares centrais do pensamento pós-keynesianismo, corrente na qual a demanda por moeda passa pelo comportamento dos agentes diante do ambiente econômico e da incerteza.

Nessa visão, própria de uma economia monetária de produção (ou o capitalismo), a demanda por moeda se transforma — por transação, precaução ou especulação — dependendo do momento econômico e do grau de incerteza percebido. É daí que vem a célebre frase de Keynes: “a longo prazo, estaremos todos mortos.”

Os principais expoentes são:
Paul Davidson (1930–2024) (Importante macroeconomista americano e principal, expoente da vertente americana da economia pós-keynesiana, foi um dos fundadores do Journal of Post Keynesian Economics). Suas contribuições centrais:
Incerteza fundamental e o axioma ergódico — ao contrário da economia clássica, o futuro não pode ser previsto estatisticamente a partir do passado (rejeição do axioma ergódico); as decisões econômicas são tomadas sob incerteza radical.
A moeda como fator central — a moeda não é um mero meio de troca neutro, mas uma forma de reter riqueza (preferência pela liquidez) em um mundo incerto, o que afeta diretamente o nível de emprego e a produção.
Crítica à economia convencional — rejeição de modelos que assumem mercados com autorregulação automática ou flexibilidade de preços capaz de garantir o pleno emprego.
Victoria Chick Economista pós-keynesiana britânica, famosa por suas contribuições ao entendimento e reexame da Teoria Geral de Keynes;

Fernando Cardim de Carvalho Principal expoente do pensamento pós-keynesiano no Brasil, professor emérito da UFRJ e aluno de doutorado de Paul Davidson. Foi meu professor no mestrado acadêmico da UFF, mencionado como ponto de partida desta reflexão.

4. Fechando o círculo do debate
O que une as duas visões – leitura comportamental de Stolzoff e a teoria monetária de Davidson, Chick e Cardim – é a mesma constatação: a incerteza não é um problema a ser resolvido, mas uma condição a ser administrada.

Na leitura dos “alternativos” de Keynes, a demanda pela preferência por liquidez acontece nas situações de precaução, já prevendo algum evento adverso, na especulação, no “sangue frio” de encontrar o timing exato entre altas e baixas e nas transações do dia a dia.

Sempre a taxa de juros será um balizador para esta demanda. Na leitura de Simone, tentamos balizar a carreira de uma pessoa, as boas decisões e as más decisões, mas sem eliminar a incerteza.

Concluindo: o que se tem é a capacidade de bem administrar, gerenciar as expectativas, ou tentar controlá-la, embora isso seja impossível.

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