Por que ter dívida cambial é ruim?

maio 7, 2015 Discussão

nota

Nos últimos dias começaram a ser divulgados os balanços de empresas do primeiro trimestre de 2015, onde aparecem seus resultados de vendas, lucros e outros detalhes das estratégias empresariais.

Dentre estes detalhes, aparecem a forma de endividamento praticada pela empresa e os seus respectivos impactos financeiros. Esta forma de endividamento é, em termos simples, como a empresa se financia ou de onde obtém recursos para girar a sua atividade. Já os impactos financeiros são representados pelo custo desta dívida ou, ainda, quanto se paga pelo dinheiro emprestado. Importante ressaltar que estes não são detalhes ligados diretamente à atividade produtiva!

Neste mesmo primeiro trimestre também tivemos um dólar americano subindo de 2,7 para 3,2 ou, aproximadamente, 19% de alta!


A desvalorização do real é, em teoria:

  • boa para os exportadores pois seus produtos ficam mais baratos no exterior;
  • ruim para os importadores pois pagam mais caro em reais pelos produtos externos; e
  • neutra para os demais.

Mas por que vemos prejuízos em função da desvalorização do real nos balanços das empresas exportadoras e de comércio local?

A resposta é simples e dolorosa: porque as empresas especulam no câmbio e, muitas vezes, sem saber!

As empresas utilizam endividamento externo, principalmente em dólar, pois as taxas de juros cobradas são mais baixas do que as taxas obtidas no mercado doméstico. Assim, justificam estas operações pela diferença entre estas taxas de juros externa e interna.

O problema começa exatamente aí: no financiamento externo não há apenas o diferencial de taxas na sua composição. Deve ser considerado também o custo de internalizar esta taxa!

Internalizar a taxa significa:

  • fazer proteção (hedge) contra desvalorização cambial;
  • arcar com problema de liquidez relativos a esta proteção (são as “chamadas de margem”); e
  • arcar com os custos legais da operação.

Sobre hedge ou proteção, os derivativos são os instrumentos mais adequados, seja via swaps cambiais (acordos de troca de moedas) ou via futuros cambiais.

Sobre o problema de liquidez, para o caso de derivativos com ajustes, sugiro ler com atenção a especificação dos contratos nas bolsas ou mesmo contar com uma boa corretora ou um bom banco para auxiliá-los. Cuidado com as operações sem ajustes ou sem margem (ou sem risco de liquidez), pois there ain’t no such thing as a free lunch (não há almoço grátis)! Dica: observe a taxa!

Sobre custos legais, temos os impactos da tributação distorcida. Sugiro a leitura ligada a commodities do Arnaldo Correa em Um governo que Pune quem Faz Hedge!!!.

As empresas não internalizam a taxa ou de forma intencional ou por algum desconforto nas ações necessárias para isso. Em ambos os casos, no entanto, se transformam em especuladores cambiais.

Mas qual é o problema de ser um especulador?

No sentido técnico da palavra, o especulador é um agente financeiro muito útil ao mercado pois age assumindo riscos nas operações e dando liquidez ao mercado. As empresas, por outro lado, não têm como foco serem agentes financeiros pois isso não é a sua atividade principal nem onde elas detém o seu know how. Por isso, não devem atuar como especuladores (ou vão levar prejuízo)!

Isto equivale a dizer que devemos encarar divulgações de resultados em função dívida em outras moedas da forma idêntica tanto para lucros quanto para prejuízos, pois em ambos os casos foi resultado de uma especulação cambial, que a empresa não sabe (normalmente) fazer!

Respondendo, então, a pergunta inicial, as dívidas cambiais são ruins porque as empresas assumem esses compromissos sem levar em conta que não internalizar a taxa é o mesmo que especular no câmbio. E isto não é jogo para amadores!

 

Histórico de emissões de empresas é parte do Sistema TRISK, integrante da Plataforma Integrada de Risco Duxus (http://www.duxus.com.br).

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